foi ele quem me ofereceu aqueles discos. éramos estudantes, contávamos tostões e não éramos felizes. nunca fomos, aliás. mas, fazíamos cópias de música, cheias de graça e de retratos peculiares. cheios de amor.
acho que nunca me vou esquecer desses tempos, da caligrafia dele, marcada, de altos e baixos. a preto, como é óbvio. e com a Mont Blanc que ele e só ele usava. tinha sido a irmã que lhe oferecera, confidenciou-me, um dia.
ouvíamos os cd's a dois, como adolescentes que perdem a virgindade musical e depois não querem outra coisa. e aquilo era fodido, caramba, aquilo era fodido. tinha tanto lá dentro que nem as músicas, nem as letras conseguiam explicar o sentimento que nos assolava.
mesmo quando ele se foi embora, os cd's ficaram. e eram tão reais, que nem foi preciso o último adeus entre mim e ele. acho que o elo ficou para a chama eterna. nem sempre temos de falar com a pessoa para sabermos que ela ouve a mesma canção. uma beleza negra.
e quando escrevemos linhas passadas na segurança do presente, sorrimos. sonha comigo, irmão. há (a)mar(-Me) e (a)mar(-te), há ir(-te) e voltar-(te).
porque teremos sempre música e, como o Miguel diz, ela "nunca vem de onde se espera"*.
pois não: está sempre a surgir.
* miguel esteves cardoso
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
quarta-feira, 7 de outubro de 2009

se são lágrimas que choro, foste tu quem as criou. não choro água, choro-te, lama, vento e falta de alma. são tuas as tonturas e os delírios, os tremidos e os soluços. são teus os julgamentos, a inveja e a competição a que expões quem tenta passar incólume. de filáucia, tens zero; de escárnio e maldizer, tens vinte. já entraste para o quadro de honra do século XII, onde estancaste? pára, pára, pára. sai da minha cabeça, seu petulante infame. deixa-me vomitar-te das minhas entranhas, de lá tens de sair, porque quero, porque preciso descans[ar-te]. simplesmente, deixa-me dormir esta noite, monstro sem fim. não me assombres, apenas. quero dormir.
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
metas e cor, não foges.
A vida esmorece por uma dessas janelas. No início, eram os cortinados floridos. Às cores, com padrões alegres, brilhantes, simples. No fim, já nem de retalhos se tratavam. Atrás deles, escondia-se uma mancha negra, desbotada com purpurina. Pareciam lágrimas, nesse tecido. Sabes, é que quem não dá valor às palavras, ensurdece. Pior, emudece. Quem troca de cortina a meio da vida, apodrece. E sabes? Nem tudo faz sentido e a dor é uma dessas coisas senis, como as mazelas que só fazem sentido quando sentidas.
Mudar, novamente, as cortinas é difícil. As cortinas são o que moldam a paisagem. O esforço para as mudar é atroz. Sabes, é tão difícil levantar o dedo para o sol entrar. O esforço hediondo da mudança quando nem força para uma simples cortina se tem.
Diz-me: o amarelo é melhor que a púrpura? ou o rosa mais abrasador que o preto?
terça-feira, 11 de agosto de 2009
esvoaça e morre.

Deitado ao lado de um filho morto, ele abraça as mãos inertes de carne mole, fria. Nada corre nas veias: nem o medo, nem o sono, nem a angústia. Não há vida, há lodo.
Sentado, ele olha o filho morto coberto nessa massa castanha lodacenta, em mágoa. O fim.
Não falaram do fim, porque tinham prometido não o fazer. O fim seria quando tivesse de ser e quando o lodo emergisse.
Emergiu.
Ele purificou-se. Tomou um banho e embrulhou o filho num saco plástico qualquer. Saiu de casa e, como quem deita um guardanapo depois de usar, colocou o saco no lixo.
Na paragem de autocarro decrépita, sozinho entre as luzes fundidas de uma cidade-cadáver, ele entra no 29C. Dois gémeos de olhos claros, com pouco mais que 3 anos, sorriem-lhe. Ele desvia, inopinadamente, o olhar. Não quer vida. Senta-se a seu lado uma mulher de meia-idade. Gorda, cansada, grávida. Uma ode à fealdade, ao néscio que a vida humana tanto protagoniza. Ele levanta-se, perturbado. Parece que, para onde quer que olhe, a experiência do ser lhe espeta murros secos e surdos, qual lutador faminto de sangue.
Sai no destino mais próximo. Uma colina. Nada à volta. Dali, avista a cidade, ali está sozinho e o vento é a sua única companhia.
Ao longe, esvoaça um saco-plástico, como se as memórias esvoaçassem, como se o papagaio que ele próprio lançava, na infância perdida pelas praias do sul viesse com ele.
É isso. Sul. É tempo de rumar a sul. O vento suão é mais doce do que este, que teima em penetrar e em trazer o fétido do cadáver abandonado, do passado encostado.
Vai partir. Com um esqueleto na bagagem, em busca do fim. Porque aqui não é um bom lugar para morrer. Muito menos, para enterrar.
terça-feira, 30 de junho de 2009
quando choramos por algo e, na verdade, estamos a chorar por outra coisa qualquer, é oportunismo. é este mar de sargaços, em que navegamos à bolina, sem saber bolinar.
o vento é uma simples vibração que não é de ninguém. o vento é hoje e é para sempre. o mar de sargaços não é de hoje, nem é de sempre.
mas hoje há vento e o mar está revolto.
quarta-feira, 24 de junho de 2009
lista de coisas tristes a fazer antes que a alzheimer seja belzebú.
2 - cantar.
3 - aprender xadrez.
4 - ver paisagens mirescas.
5 - comprar uma caixa de música.
6 - fazer o solo triste.
7 - acompanhar à guitarra, tristemente.
8 - filme de gaja.
9 - alho francês à brás.
10 - aprender a jogar matrecos.
domingo, 14 de junho de 2009
terça-feira, 5 de maio de 2009
coisas parvas a fazer antes que "o amanhã seja a maior mentira"*

1º - deixar de fumar.
2º - gostar dela e mimá-la.
3º - fazer um piercing no nariz.
4º - encontrar um emprego.
5º - sair de portugal.
6 º - acabar bem o mestrado.
7 º - ver um concerto de radiohead.
8 º - arrumar o quarto.
9 º - escrever o que tem de ser escrito, até que o coração saia da boca.
10º - decidir e fazer o que tem de ser feito.
11 º - fazer desporto.
12 º - o chão que pisas não ser eu.
13 º - tirar a carta.
14 º - fazer as linhas acima serem verdade e não serem o número t r e z e.
* pluto e o ser só mais um começo
segunda-feira, 4 de maio de 2009
jeff buckley e a sua graça ou "como é que este homem continua a fazer parte da minha vida, há quatro anos".
terça-feira, 28 de abril de 2009
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