quarta-feira, 4 de março de 2009

Lembra-me disto, meu amor.


Lembrei-me da vida desafinada que tinha, quando reparava que não gostava de ti. Lembrei-me de quando era eu a pintura e tu apenas observavas, passivo. Lembrei-me do meu sangue, do meu suor, dos meus cabelos ao vento e do teu olhar atento. Lembrei-me da velocidade a avançar para nós e do misto do desafio e do medo que me temperavam a boca. Lembrei-me de quando calçavas as minhas luvas, por erro, e vias que os desafios da minha mão eram bem maiores que os teus. Lembrei-me de quando usava os teus sapatos e percebia que o meu caminho seria trilhado longe do teu. Lembro-me de ti e lembro-me do meu choro, que, com todas as palavras-amor do mundo, tu não conseguias travar. Lembro-me do cinzento e do morno e do neutro e do zero e do nada. Lembro-me de por outro suspirar e tu saberes, fraco, frágil, fragmentado por um amor maior que a vida e que o sonho. Lembro-me dos 100 quilómetros que o mostrador indicava e dos cem batimentos que o meu coração não dava e das tuas mãos impotentes na condução do meu não-sorriso. Lembro-me de dactilografar, fria fria, o meu querer, a uma velocidade maior, forte, imponente. Lembro-me dos astros, da água, das estátuas da praça, das paredes silenciosas e confidentes saberem, de todos saberem. Lembro-me de viver, não querendo viver-te. Lembro-me, sem remorso, de continuar a escrever uma vida em versos e versinhos, em contos e densas narrativas, cartas sem destinatário, anedotas e tragicomédias. Lembro-me de continuar a escrever-me sem ti, com ultrapassagens, sem paragens, nem sentidos obrigatórios. Lembro-me de puxar o travão e seguir, firme, noutra direcção.

2 comentários:

Anônimo disse...

Quando estamos por fora qualquer palavra escrita sobre amor nos soa ridículo. Mas o pior é, sem dúvida, quando saímos dessa bolha de alienação e achamos tudo aquilo que escrevemos, ridículo...
Meu doce, vais voltar a apagar este blog...

Um beijo,
De quem te quer bem.

uma nuvem de saias. disse...

respeito a opinião. mas, intriga-me. se me queres assim "bem", porque não te identificas, anónimo?